Abonotich — um antigo porto esquecido da Paflagonia, nas margens do Mar Negro
Na encosta suave onde hoje se agita a pequena cidade de Inebolu, no Mar Negro, outrora erguia-se Abonotich — um pequeno empório grego que se tornou famoso em todo o mundo antigo graças a um dos escândalos religiosos mais controversos da história. Foi precisamente aqui, em Abonotich, no século II d.C., que surgiu o culto ao deus serpente Glicon e ao seu profeta engenhoso, Alexandre, sobre quem o satírico Luciano de Samósata escreveu com ironia mordaz. Hoje, da antiga cidade não restam nem muros nem colunas, mas o seu nome perdura no nome turco İnebolu e em raras moedas de bronze com a inscrição ΑΒΩΝΟΤΕΙΧΙΤΩΝ. Este é um lugar para o viajante-explorador, para o amante da história das religiões e para quem não se assusta com os longos quilómetros pela sinuosa estrada do Mar Negro, em busca do espírito das cidades desaparecidas.
História e origem de Abonotich
A cidade foi fundada, segundo a versão mais comum, por volta do século III a.C. como um empório — uma factoria comercial dependente da poderosa Sinope, a maior pólis grega da costa sul do Mar Negro. O próprio nome da cidade já revela a sua origem: Ἀβώνου τεῖχος, traduzido do grego antigo, significa «muralha de Abonos» ou «fortaleza de Abonos», sendo Abonos, aparentemente, o nome do proprietário inicial ou do fundador da fortificação. Os habitantes autodenominavam-se Αβωνοτειχίτης — «abonochítas».
A localização foi escolhida com perspicácia. A costa da Paflagonia, entre Sinope e a foz do rio Galis (atual Kyzylirmak), constituía um território montanhoso e de difícil acesso, com uma estreita faixa de terra fértil junto ao mar. Abonotich tornou-se um dos poucos portos convenientes nesse trecho, um ponto de transbordo para o comércio de madeira, resina, linho e escravos, que fluíam através de Sinope para o Mediterrâneo. A importância estratégica da cidade era modesta, mas suficiente para que ela se mantivesse ao longo de séculos de turbulências.
Em 64 a.C., após a Terceira Guerra Mitridática, a região entrou na esfera de influência romana. A Paflagonia tornou-se parte do sistema provincial de Roma, e Abonotich, tal como a maioria das pequenas pólis gregas da costa, manteve a autonomia em troca de lealdade. As moedas de bronze da cidade, cunhadas durante os reinados dos imperadores Antonino Pio, Marco Aurélio, Lúcia Vera e Lucila, testemunham uma vida municipal estável, embora modesta.
Foi precisamente no século II d.C. que ocorreu o acontecimento que mudou o destino da cidade. Alexandre, natural da região — um homem carismático e empreendedor, discípulo dos seguidores do famoso milagreiro Apolónio de Tiana — fundou aqui um novo culto ao deus serpente Glícon. Segundo o testemunho de Luciano, Alexandre dirigiu-se ao imperador romano (presumivelmente Antonino Pio) com o pedido de renomear a sua cidade natal de Abonotich para Ionópolis — «cidade de Ion», irmão de Asclépio. Não se sabe se o imperador concedeu oficialmente essa graça, mas nas moedas posteriores aparece de facto a inscrição ΙΩΝΟΠΟΛΙΤΩΝ, e na época bizantina a cidade já era chamada apenas de Ionópolis. Foi precisamente a partir deste nome, após séculos de distorções, que surgiu o atual İnebolu turco.
Arquitetura e o que ver
Comecemos por uma confissão sincera: praticamente não existem ruínas arqueológicas de Abonotis propriamente ditas. Não se conservaram nem muralhas, nem templos, nem ágoras, e não foram realizadas escavações sistemáticas no território da atual İnebolu. A camada antiga encontra-se sob a cidade atual, parcialmente erodida pelo mar, parcialmente coberta por edifícios. No entanto, para o viajante, há aqui algo para ver — basta mudar a perspetiva de «visitar ruínas» para «ler a paisagem».
A costa, o porto e os contornos da cidade antiga
Um passeio pela orla de İnebolu dá uma excelente ideia do motivo pelo qual este local foi escolhido pelos colonos gregos. A baía é protegida a leste e a oeste por promontórios baixos, a norte pelo mar aberto e a sul por um anfiteatro de colinas. O porto antigo situava-se aproximadamente na zona do cais atual; era aqui que atracavam os navios que transportavam mercadorias do Mar Negro para Sinope e, daí, para a Egeia. Da elevação mais próxima, abre-se uma panorâmica que quase não mudou ao longo de dois mil anos.
O local onde se erguia o templo de Apolo
De acordo com fontes antigas, em Abonotis, no século II d.C., existia o templo de Apolo — foi precisamente nele, segundo o relato de Luciano, que Alexandre encenou o nascimento milagroso do deus Glicão, colocando uma pequena cobra viva dentro de um ovo de ganso esvaziado. Hoje em dia, não é possível localizar com exatidão o templo, mas é muito provável que se situasse na parte central da cidade antiga — aproximadamente onde se encontra atualmente o bairro antigo de Inebolu, com a mesquita otomana e as tradicionais casas de madeira.
Moedas, inscrições e vestígios numismáticos
O principal vestígio material de Abonoteich — as suas moedas. Exemplares de bronze com as inscrições ΑΒΩΝΟΤΕΙΧΙΤΩΝ e ΙΩΝΟΠΟΛΙΤΩΝ foram cunhados no século II, com retratos de imperadores e das suas parentes, incluindo Lucila, esposa de Lucius Verus. Em algumas moedas está representada a serpente Glícon com orelhas humanas — exatamente como Luciano a descrevia. Estas moedas encontram-se nas maiores coleções museológicas do mundo; na própria Turquia, exemplares isolados podem ser vistos no Museu Arqueológico de Kastamonu e no Museu Arqueológico de Istambul.
Panteão da cidade antiga
Para além de Apolo e Glicon, em Abonotis eram venerados Zeus, Asclépio, Dionísio, Nica, Artemis e Zéfiro — um conjunto típico de cultos da cidade-estado da Grécia antiga. Isto aponta para uma vida religiosa plena, com festas, procissões e sacrifícios, da qual hoje não resta sequer uma única estela.
O legado de Ionópolis — o rasto cristão
Na Antiguidade tardia, a cidade tornou-se um centro episcopal no âmbito da metrópole de Gangra (atual Çankırı). O historiador francês Michel Lecien, na sua obra «Oriens Christianus», menciona oito bispos de Ionópolis entre 325 e 878 — desde Petronio, que participou no Concílio de Nicéia de 325, até Nikitas, que no século XI foi simultaneamente bispo e cartulário do Grande Orfanotrófio de Constantinopla. O bispo Ren esteve presente no Concílio de Calcedônia de 451, e Diogenes — no Concílio de Éfeso de 431. Um bispo específico chamado João é mencionado no século XI. Após o século XI, a sé episcopal foi gradualmente desaparecendo, acompanhando o declínio geral da influência bizantina na região, e no século XX o título de Iopolita foi nominalmente restaurado pela Igreja Católica Romana como bispado titular (de 1929 a 1971), que foi ostentado, entre outros, pelo cardeal americano de Baltimore, James Gibbons — um dos hierarcas católicos mais influentes dos EUA na viragem dos séculos XIX e XX.
Paisagem e atmosfera da atual Inebolu
A pequena cidade contemporânea, numa noite de verão, lembra o cenário de um romance provinciano: casas otomanas de madeira descem em terraços até ao mar, pescadores consertam redes junto ao cais, e sobre os telhados sente-se o cheiro de anchovas fritas e pides acabadas de cozer. É precisamente este ritmo tranquilo, e não as ruínas majestosas, que se torna a principal impressão de uma visita a Abonotich — como se a cidade tivesse escondido propositadamente o seu passado antigo sob uma camada de vida quotidiana do Mar Negro.
Factos interessantes e lendas de Abonotich
- Luciano de Samosata, no panfleto «Alexandre, ou o Falso Profeta», descreve como o fundador do culto de Glicão em Abonotich utilizava uma cobra de pelúcia proveniente da Macedónia, com uma máscara antropomórfica de tecido fixada a ela; as mandíbulas mecânicas eram controladas por fios ocultos, e o «deus» supostamente falava com os peregrinos.
- Segundo Luciano, Alexandre teve tanto sucesso que recebeu pedidos do próprio imperador Marco Aurélio e dos comandantes que partiam para a guerra contra os partos. Um dos «oráculos» de Glicon — a recomendação de lançar dois leões ao Danúbio — teria supostamente resultado numa catástrofe militar para o exército romano.
- O nome Ionópolis, que a cidade recebeu a pedido de Alexandre, está ligado a Ion — o irmão mitológico de Asclépio — ou, segundo outra versão, aos gregos jônios que colonizaram a costa. Esta renomeação é um caso raro em que um escândalo religioso alterou a toponímia por milénios.
- O nome turco contemporâneo İnebolu é uma distorção direta do grego Ἰωνόπολις: passando pelas etapas Aineboli, Ineboli, Ainepoli, a palavra adquiriu gradualmente a sua forma atual. Por vezes, em fontes medievais, a cidade era chamada simplesmente de Abono.
- O culto a Glícon exerceu uma influência surpreendente na cultura contemporânea: o escultor romeno de origem checa e a própria cidade de Constança guardam uma estátua de mármore de Glícon do século II, encontrada em 1962 — a única representação sobrevivente do «deus serpente» em tamanho real.
Como chegar a Abonoch
A atual İnebolu está localizada na província de Kastamonu, na costa norte da Turquia, a cerca de 100 km a norte do centro regional de Kastamonu e a 200 km a leste de Sinop. Para um viajante da Rússia, o mais conveniente é voar para Istambul (aeroportos IST ou SAW) e, de lá, apanhar um voo doméstico para Kastamonu (aeroporto de Kastamonu, código KFS) — o voo demora cerca de 1 hora e 15 minutos. Existem também voos regulares para Samsun (aeroporto SZF), de onde são cerca de 260 km até Inebolu pela pitoresca estrada costeira D010.
De Kastamonu a İnebolu pode-se chegar de dolmuş ou autocarro interurbano em cerca de 2 horas; a estrada serpenteia por desfiladeiros montanhosos e oferece uma excelente visão da geografia da Paflagonia. De Istambul, há autocarros diretos que partem à noite, com uma viagem de 11 a 12 horas. De carro, a partir de Istambul, são cerca de 750 km; é mais conveniente dividir a viagem em duas partes, com pernoita em Kastamonu ou Safranbolu. O transporte público dentro de İnebolu é praticamente desnecessário: todos os pontos de interesse ficam a uma curta distância a pé.
Dicas para o viajante
A melhor época para visitar é o final da primavera (maio-junho) e o início do outono (setembro-outubro). No verão, o litoral é quente e húmido, enquanto no inverno o Mar Negro junto a İnebolu é cinzento e tempestuoso, com ventos fortes e chuvas frequentes. A neve é rara aqui, mas a temperatura em janeiro desce para +2…+5 graus. Na época de transição, a luz suave torna os contornos antigos das colinas costeiras particularmente expressivos, e as multidões de turistas neste recanto da Turquia são, de qualquer forma, mínimas.
O que levar: calçado confortável para passeios pela orla e pelas colinas, máquina fotográfica, o livro de Luciano «Alexandre, ou o Falso Profeta» (a tradução para o português está disponível na coleção «Monumentos Literários») — lê-lo no próprio local onde a ação se desenrolou é um prazer especial. Leve liras em dinheiro de antemão: há caixas eletrônicas em İnebolu, mas são poucas. O inglês é mal compreendido aqui; um guia de conversação básico ou um tradutor no celular serão úteis.
O que combinar com a viagem: 90 km a sul fica Kastamonu, com as suas mesquitas seljúcidas, o castelo otomano e os museus etnográficos, e a 3 horas de carro a leste — a famosa Safranbolu, com as suas casas do século XVIII protegidas pela UNESCO. Se tiver dois ou três dias, pode montar um itinerário completo pela «Costa da Paflágona»: Amasra, İnebolu, Sinop — três portos com mil anos de história, cada um com o seu carácter. Em Inebolu, não deixe de provar o peixe local — hamsa e barabulka, solha do Mar Negro acabada de pescar e queijos de Paflagonia de leite de cabra, servidos em pequenos restaurantes familiares junto ao cais.
Não espere encontrar em Abonotik ruínas espetaculares ou placas a indicar «cidade antiga aqui»: este é um lugar para quem vem para interpretar a paisagem, e não para comparar fotografias com o guia turístico. Mas é precisamente nesta atmosfera discreta, quase sem turistas, da pequena cidade de Abonotich, no Mar Negro, que se revela um fenómeno histórico raro — um lugar onde um pequeno empório nos confins do mundo civilizado deu origem a um culto sobre o qual os imperadores romanos discutiram e sobre o qual escreveu um dos melhores satíricos da Antiguidade.